segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O equívoco - parte 2

—A lei é justa, tanto que se exibe. Os julgamentos se fa­zem a portas abertas. Olhe, olhe como estão escancaradas. É o código que expressamente determina.
— Expressamente, dizeis bem, Senhor. Esse empenho em mostrar é que revela a intenção de esconder. Porque não se consegue descobrir o que entra pelos olhos. Vós, que me olhais, acaso vede a lente dos vossos óculos?
—Tu negas, não este ou aquele mandamento, negas a lei inteira.
—Sou aliado da lei, Senhor, mesmo da vossa, já vos disse, pois quero melhorá-la. Vós é que a contrariais, cumprindo-a.
—Jogo de palavras. Se fosses alfabetizado amarias a lei como ela é.
—Para isso se alfabetizam as pessoas.
—Amarias a lei, amarias, pois a lei, aprende, a lei, para ser lei, tem que ser geral e igual para todos.
—Menos para os que a executam, Senhor. Se estes a vio­lentam, quem a executará contra eles?
—Em que regime sucede assim?
—Em todos, Senhor. Tudo mudará, somente, no fim dos tempos.
—O tempo acaba?
—Quando o homem for eterno, não precisar mais mor­rer. A morte dá muitas conseqüências.
—És arrogante.
—Vede que vos chamo de vós, e o arrogante sou eu.
—Serás condenado?
—Vossa lei o quer.
—Pois tu o dizes. Não sou eu quem te condena, é a lei, que tu mesmo interpretaste. Eu, eu pessoalmente não te vejo cul­pa alguma, eu não te condeno. Carcereiros. Levem esse justo. Ao amanhecer, matem-no sobre um monte, de modo que to­dos vejam a lei respeitada. E agora, soldados, tragam-me os códigos, busquem todos os artigos de que se tem notícia, para que eu neles lave as minhas mãos.

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