—Nome. Teu nome. Vamos, o nome, para que eu veja qual dos processos é o teu.
—Todos são meus, Senhor. Sou todos os réus.
—Arriscas a liberdade, respondendo assim. Imaginas com quem falas?
—Sois todos os juizes do mundo, em todos os tempos.
—Sabes então que tenho o poder de te mandar prender e de ordenar que te soltem?
—Tal poder não vos pertence, já que vos pode ser tomado.
—Afinal afinal, quem és tu?
—Sou aquele que é.
—Cada qual é aquele que é.
—Não. Vós pretendeis ser aquele que aparenta. Acreditai-vos juiz. E, no entanto, não o sois: vós sois apenas vós.
—Tu desobedeces a lei, dizendo dessa forma. A lei recomenda papéis. Tens que representar o réu, para que eu possa, como é do meu dever, representar o juiz.
—Não vim contrariar, vim melhorar a lei, Senhor.
—E quem és tu para melhorar a lei? A lei criou os meios de se melhorar a si própria.
—Não se poderia melhorar a lei, Senhor, obedecendo à lei que se quer melhorar.
—Então descumpres a lei.
—Procuro cumprir outra lei, Senhor, com a qual um dia a vossa irá se conformar.
—Tolice. Há uma só lei. Nunca leste os doutores?
—Não sei ler, Senhor.
—E quer melhorar a lei! Por acaso sabes do que te acusam?
—Me acusam. Basta. Quem chega a réu está condenado.
—Há pessoas que absolvo.
—Só absolvendo alguns se poderia prosseguir condenando a todos. Castigásseis invariavelmente, e até os cegos enxergariam, Senhor.
—Sofisma, filosofias. Mas, e o teu destino? Não te preocupa com o teu destino?
—Meu destino não está em vossas mãos. Se o vosso, que é vosso, não está nelas, como poderia estar ali o meu?
—Não queres ao menos saber que acusação te fazem?
—Por mais que mexam com as palavras, Senhor, só uma acusação existe: a de não ter poder. A quem tem, mais se dará. De quem tem pouco, se tirará o pouco que tem. E a quem não tem poder algum, a este sim, se acusará sem piedade e se matará depois.
—Te mandarei matar?
—Assim ordena vossa lei.
—A lei é justa.
—Senhor, a lei é útil. Diz-se que é justa pata que os injustiçados a reverenciem.
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