Catando-me em cacos, curvado em uma coluna sem saúde, dobrado no que restou de um joelho, me juntei aos poucos, colando parte a parte, tentei me reconstruir, mas vi que nunca mais seria o mesmo, os vincos produzidos pela cola usada, por maior cuidado e capricho que tivesse, estavam todos a mostra, remendos muito bem feitos, mas faltavam caquinhos, frestas mínimas que somente bem de perto se poderia perceber, mas estavam lá, vez em quando um vento frio penetrava como se quisesse apenas mostrar essas falhas, e tudo ficava frágil, não mais frágil do que já era, porém agora frágil de forma visível, tudo seria muito mais fácil se não tivesse tanta noção de nexo de causalidade. O fato aconteceu e foi como se quebrasse dimensões e tempo, viajei por um espaço de 20 anos entre o passado e o futuro, sensação de vazio, dor, desperdício.
Sem saúde, sem esperança, vi um menino esperançoso, vibrante, tímido e disciplinado e em poucos segundos estava diante de um homem curvado, sem fé, revoltado e desumano, parecendo aqueles quadros de transformação de programas de TV, o antes e o depois estava dividido em 20 anos, mas a mudança foi abrupta,
AAAAAAAAAAAAAAA – FATO – BBBBBBBBBBBBBBB.
Sim, era isso, a tal linha tênue do bem e do mal tinha se rompido, a grande fábrica de terror tinha produzido mais um dos seus monstros, liberto mas sem recursos, impossibilitado de fazer as maldades exclusivamente a ele inferidas, tempo importante para que ouvisse vozes de bondade que lhe falavam ao ouvido, como se estivesse em hipnose demorou a acordar, mas quando aconteceu decidiu se dedicar a mudar o futuro, ele sabia como seria se tudo corresse como previsto, guardou as maldades em uma caixa de isopor fino, e com a visão muito mais apurada do que antes, se permitiu voltar a ser humano, sim, humano.
Mesquinho, caridoso, invejoso, lutador, melancólico, entusiasmado, odiado, amado, medroso, corajoso, chorava desesperado e gargalhava até perder o ar e todos os muitos pontos de dualidade impostos a ele, tomou o controle do que podia, tentou aceitar o que lhe fugia, começando por parar de sentir pena de si, abaixou o dedo acusador e iniciou um caminho diferente, talhado com dificuldade, porém com curvas próprias e destino incerto, o que para muitos é motivo de aflição, para ele era o ponto de esperança, e me digam o que move uma pessoa senão a esperança?
Ele tinha algo que o diferenciava, se conhecia, e muito. Sabia do que era capaz, tanto para o bem, quanto para o mal, e esse “poder” inserido naquela DATA lhe permitia prever coisas como se um paranormal fosse, evitava situações e provocava outras, lia comportamentos como poucos, sabendo exatamente como agir e o que dizer para cada situação, porém com um ponto diferencial, mantinha-se autêntico, isso mesmo, extremamente autêntico, chegando bem perto da grosseria, apenas perto.
Desistiu de achar os tais caquinhos, e descobriu uma maneira de aceitar as brechas, era simples, se fosse um ar frio, sentia o frio, se fosse quente, sentia o calor, se tivesse cheiro, apreciava o aroma e talvez tenha descoberto a essência de toda existência, da vida, SENTIR.
5 comentários:
Ficou bom cara, desconheço suas referências. Mas gostei bastante.
Já faz algum tempo que venho acompanhando seus textos, e me surpreendo a cada novo texto lido...^^ questão de dom mesmo!
Quando for publicar seu livro quero ser a primeira a comprar, pois serei sempre a sua fã N. 01.
Renata Carrilho
- Depois de ler um texto desses, agente fica até com receio de escrever alguma coisa. Pois se tivermos que realmente fazer um comentário sobre ele, deveremos fazê-lo a altura, e chegar a tamanha descrição e perfeição, é difícil pra mim!
"se fosse um ar frio, sentia o frio, se fosse quente, sentia o calor, se tivesse cheiro, apreciava o aroma"
Nós procuramos tantas maneiras de resolver as coisas, mas não tentamos pelas mais fáceis, por talvez medo da simplicidade, ou até ausência de crença, em si próprio.
Texto brilhante Eduardo, parabéns!
mt irado, mt mesmo, a cada texto lido mas surpresa e mais emoção ! reamente incrivel
Ficou perfeito.
Postar um comentário