quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Enfim o silêncio

Já sabia que eles viriam, pegamos pertences leves, aquele pão de massa fina ia nos ajudar, peguei meu filho no colo e corri pro meio da rua, minha esposa veio logo atrás, olhos aterrorizados cruzavam com os meus, dentre todos, pensava ser um dos mais tranqüilos, se é que posso usar essa palavra.

Mandaram as mulheres para um lado, e os homens para o outro, neste momento temi que ficaríamos separados, entreguei rapidamente nosso filho em seus braços, e eles correram pro lado determinado.

Eram meninos de farda, e por mais que soubesse que todos nós somos influenciáveis por toda vida, também sabia que na faixa de idade daqueles soldados, temos a tendência de nos cegarmos em verdades absolutas.

Como por Osmose, todos agiam e falavam de forma idêntica, uma espécie de sincronia bizarra, escutei uma gritaria e vi quando um homem tentava impedir quê sua esposa fosse para o outro lado, a movimentação dos soldados me mostrou que competiam, isso mesmo, eles disputaram para ver quem iria dar o tiro que mataria o homem, e nesse momento abandonei o que restava de tranqüilidade em mim.

Tiro, choro, silêncio, choro, tiro... E enfim o silêncio.

Nunca imaginei que poderia enxergar algo de bom na morte, porém tenho certeza que se matassem minha esposa e meu filho, eu mesmo clamaria por uma bala...

Caminhamos até os trilhos do trem, lá já existiam muitos de nós, me perguntei por que fomos os escolhidos, pensei em todas as gerações anteriores, o que será que fizeram?

Tentava não perder eles de vista enquanto acalmava o coração com pensamentos positivos que afirmavam que iríamos para o mesmo lugar, cruzamos nossos olhos quando eles foram colocados dentro de um vagão, acenei e pude ver olhos de alívio quando me viram, eu não sabia que esta seria a ultima vez que os veria. Anos de trabalho forçado, tentando me manter produtivo e nem mesmo a foto que tinha colocado na sola de meu sapato eu tinha mais, me arrependo de estar vivo, porém sem coragem agora para mudar isso.

De todos os crimes cometidos, a ignorância dos fatos é a que mais me perturba até hoje, e será para sempre, assim como aqueles olhos.

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