sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Embriaga-te

Devemos andar sempre bêbados.
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto.
Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:
"São horas de te embriagares!"
Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.

Charles Baudelaire

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Enfim o silêncio

Já sabia que eles viriam, pegamos pertences leves, aquele pão de massa fina ia nos ajudar, peguei meu filho no colo e corri pro meio da rua, minha esposa veio logo atrás, olhos aterrorizados cruzavam com os meus, dentre todos, pensava ser um dos mais tranqüilos, se é que posso usar essa palavra.

Mandaram as mulheres para um lado, e os homens para o outro, neste momento temi que ficaríamos separados, entreguei rapidamente nosso filho em seus braços, e eles correram pro lado determinado.

Eram meninos de farda, e por mais que soubesse que todos nós somos influenciáveis por toda vida, também sabia que na faixa de idade daqueles soldados, temos a tendência de nos cegarmos em verdades absolutas.

Como por Osmose, todos agiam e falavam de forma idêntica, uma espécie de sincronia bizarra, escutei uma gritaria e vi quando um homem tentava impedir quê sua esposa fosse para o outro lado, a movimentação dos soldados me mostrou que competiam, isso mesmo, eles disputaram para ver quem iria dar o tiro que mataria o homem, e nesse momento abandonei o que restava de tranqüilidade em mim.

Tiro, choro, silêncio, choro, tiro... E enfim o silêncio.

Nunca imaginei que poderia enxergar algo de bom na morte, porém tenho certeza que se matassem minha esposa e meu filho, eu mesmo clamaria por uma bala...

Caminhamos até os trilhos do trem, lá já existiam muitos de nós, me perguntei por que fomos os escolhidos, pensei em todas as gerações anteriores, o que será que fizeram?

Tentava não perder eles de vista enquanto acalmava o coração com pensamentos positivos que afirmavam que iríamos para o mesmo lugar, cruzamos nossos olhos quando eles foram colocados dentro de um vagão, acenei e pude ver olhos de alívio quando me viram, eu não sabia que esta seria a ultima vez que os veria. Anos de trabalho forçado, tentando me manter produtivo e nem mesmo a foto que tinha colocado na sola de meu sapato eu tinha mais, me arrependo de estar vivo, porém sem coragem agora para mudar isso.

De todos os crimes cometidos, a ignorância dos fatos é a que mais me perturba até hoje, e será para sempre, assim como aqueles olhos.

Estilhaçado

Catando-me em cacos, curvado em uma coluna sem saúde, dobrado no que restou de um joelho, me juntei aos poucos, colando parte a parte, tentei me reconstruir, mas vi que nunca mais seria o mesmo, os vincos produzidos pela cola usada, por maior cuidado e capricho que tivesse, estavam todos a mostra, remendos muito bem feitos, mas faltavam caquinhos, frestas mínimas que somente bem de perto se poderia perceber, mas estavam lá, vez em quando um vento frio penetrava como se quisesse apenas mostrar essas falhas, e tudo ficava frágil, não mais frágil do que já era, porém agora frágil de forma visível, tudo seria muito mais fácil se não tivesse tanta noção de nexo de causalidade. O fato aconteceu e foi como se quebrasse dimensões e tempo, viajei por um espaço de 20 anos entre o passado e o futuro, sensação de vazio, dor, desperdício.

Sem saúde, sem esperança, vi um menino esperançoso, vibrante, tímido e disciplinado e em poucos segundos estava diante de um homem curvado, sem fé, revoltado e desumano, parecendo aqueles quadros de transformação de programas de TV, o antes e o depois estava dividido em 20 anos, mas a mudança foi abrupta,
AAAAAAAAAAAAAAA – FATO – BBBBBBBBBBBBBBB.

Sim, era isso, a tal linha tênue do bem e do mal tinha se rompido, a grande fábrica de terror tinha produzido mais um dos seus monstros, liberto mas sem recursos, impossibilitado de fazer as maldades exclusivamente a ele inferidas, tempo importante para que ouvisse vozes de bondade que lhe falavam ao ouvido, como se estivesse em hipnose demorou a acordar, mas quando aconteceu decidiu se dedicar a mudar o futuro, ele sabia como seria se tudo corresse como previsto, guardou as maldades em uma caixa de isopor fino, e com a visão muito mais apurada do que antes, se permitiu voltar a ser humano, sim, humano.

Mesquinho, caridoso, invejoso, lutador, melancólico, entusiasmado, odiado, amado, medroso, corajoso, chorava desesperado e gargalhava até perder o ar e todos os muitos pontos de dualidade impostos a ele, tomou o controle do que podia, tentou aceitar o que lhe fugia, começando por parar de sentir pena de si, abaixou o dedo acusador e iniciou um caminho diferente, talhado com dificuldade, porém com curvas próprias e destino incerto, o que para muitos é motivo de aflição, para ele era o ponto de esperança, e me digam o que move uma pessoa senão a esperança?

Ele tinha algo que o diferenciava, se conhecia, e muito. Sabia do que era capaz, tanto para o bem, quanto para o mal, e esse “poder” inserido naquela DATA lhe permitia prever coisas como se um paranormal fosse, evitava situações e provocava outras, lia comportamentos como poucos, sabendo exatamente como agir e o que dizer para cada situação, porém com um ponto diferencial, mantinha-se autêntico, isso mesmo, extremamente autêntico, chegando bem perto da grosseria, apenas perto.

Desistiu de achar os tais caquinhos, e descobriu uma maneira de aceitar as brechas, era simples, se fosse um ar frio, sentia o frio, se fosse quente, sentia o calor, se tivesse cheiro, apreciava o aroma e talvez tenha descoberto a essência de toda existência, da vida, SENTIR.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Liberdade de expressão, loucura sincronizada...

Naquela troca de olhares sincronizamos os relógios, as respirações, os anseios, os planos, as perguntas, as angustias, as esperas, os sonhos, as mentiras, os desejos, as pontas de ciúmes, as resignações, as fomes, as perturbações, as loucuras, os pensamentos, as teorias, as conspirações, as certezas, as dúvidas, os medos, os corações...

Sim, eu mesmo... Repetindo... Fui eu mesmo... Tudo plano meu... Sim, como disse, todos os planos foram meus... Tava tudo planejado... Eu sabia onde ia chegar... Eu sabia sim... Isso que quis dizer, já sabia o que aconteceria, como e quando... Porque não acredita? Certo, certo... Você tem razão... Mas isso não muda nada... Só porque eram planos meus você acha que não teriam efeitos sobre mim? Você não sabe nem o que perguntar né? Ta bom, te ajudo... Vou falando e veja o que consegue aproveitar... Sabia como fazer, fiz... Sabia o que ia acontecer, fiz assim mesmo... Sim, sei que sofri, rs... Essa é a parte que não acredita né? Como pode alguém agir contra si? Saiba que antes que pense que não sou normal, te digo,eu sou perfeito... Completamente perfeito...

Claro que dentro de todas as imperfeições inerentes a mim... As dores já pertencem a mim... Não as cito mais, acho que assim elas perdem força... As coisas que tenho, minhas são... Sim, sei bem, claro que se perder, minhas não mais serão...

Jamais... não é isso... Sério, não sou soberbo... Na verdade tenho andado confiante... Em mim ué! Em quem mais seria? Confio no que sou... Afirmo que não sou melhor que ninguém... Já te falaram que tu és limitado? Não consegue entender nada do que digo... Tentas inverter, achas sentidos diferentes pra tudo que digo... Sendo assim, porque não define você mesmo, com suas palavras, tudo que te perturba em mim? Total consciência da ilicitude do fato neguinho... kkkkkkkkkkkkkkkkkk.