sábado, 18 de outubro de 2008

Desencontro

Resolveu sentar... a coluna já estava queimando há 1 hora, e nem tinha percebido, mas naquele momento tudo se tornou intenso, a dor, a ansiedade, o calor, e com isso tudo junto, ficou claro que já tinha esperado demais, 3 horas de atraso? Acho que ninguém esperaria tanto...

“só eu mermo conseguiria esperar tanto tempo, como pude acreditar em tudo aquilo?”

Por algum tempo resistiu aos pensamentos ruins, mas foi presa fácil, o coração começou com uma manchinha escura, que aos poucos o tomou por completo, e aquele amor incomensurável se transformou em um ódio de mesma grandeza, se levantou como em um susto e se dirigiu ao ponto do ônibus, e enquanto se decidia se era o momento de fazer uma extravagância e pegar um táxi, do outro lado da cidade ele não tinha opção, já estava caminhando há pouco mais de 2 horas e as únicas coisas que mantinham o ritmo da caminhada eram as batidas do coração e a esperança de reencontrá-la, se cobrava em pensamentos o fato de ter esperado tanto tempo para largar aquele carro onde estava, os dedos dos pés doíam e os das mãos sangravam, chegara ao ápice do roedor de unhas... nem sabugo restara, desejava voar, mas sabia que nem correr poderia, desejava que ela estivesse perto de uma televisão, e quem sabe assim estar sabendo do acidente, que ele próprio só acreditou após ter caminhado por 1 hora e ver as chamas ao longe, nunca tinha prestado atenção que aquelas 2 pontes se tornavam apenas uma e que só mermo por ali ou de barco poderia sair, chegara o momento de decisão, avaliou as fitas amarelas e pretas isolando a passagem, os bombeiros tentando controlar o fogo que ainda existia naquele caminhão tanque, e a desatenção dos policiais, não seria fácil... mas que se foda tudo, não caminhei 2 horas à toa, e mais, não dediquei 2 anos para reencontrar minha vida para uma fita de plástico me deter... respirou fundo e tudo ficou mais claro...

“Mas é claro... que se dane o dinheiro, os fins planejados para ele já não existem...”

Ela desceu a calçada e sinalizou ao primeiro táxi que avistou, sabia que poderia chorar, e que se isso acontecesse que o menor numero de pessoas vissem... sinalizou para outro táxi e nada de parar...

Não vou parar... ainda ecoa os gritos dos policiais chamando... Ô RAPÁ... EI... VOCÊ AÌ... PARA AI... OU...
E ele correu, e correu e correu mais ainda... e quando não estava agüentando mais lembrou que quando achamos que estamos no limite... é sinal que chegamos ao nosso 50%... então acelerou mais e em certo momento pôde avistá-la... pensou em gritar... mas poderia perder o fôlego... mas nesse momento esqueceu... esqueceu as dores... o cansaço... esqueceu que já corria há 50 minutos... esqueceu do carro largado no meio do trânsito...

“se pelo menos ela conhecesse meu assobio..”

Assobiou e foi ai que o táxi parou... ela já tinha visto aquilo no cinema... mas não sabia que funcionava realmente, entrou e mandou tocar pra Urca... sem nem querer saber quanto daria.. afinal estava com dinheiro, todo o dinheiro que conseguiu para poder fugir com ele pra longe... e poder recomeçar a vida... ainda não sabia o que faria... mas certamente não iria querer saber dele nunca mais... nunca mermo, enxugou uma lágrima no canto do olho e respirou fundo...

Respirou fundo e decidiu que alcançaria aquele táxi... ele não acreditava nessas coisas de destino, ou melhor, ele criaria o seu próprio... Correu... Correu... até escutar seu próprio batimento cardíaco... e decidiu que se não alcançasse o carro, melhor mesmo que morresse... e foi com esses pensamentos que viu o carro distanciando e uma dor chegando... quanto mais distanciava o táxi... mais a dor aumentava... até que caiu no meio da pista... e nesse momento, pessoas que já acompanhavam com os olhos aquele louco correndo entre os carros correram para ver o que aconteceu...

__Aconteceu alguma coisa de ruin lá atrás... tem vária pessoas no meio da rua...

__Aconteceu sim.. mas ficou lá atrás... Toca pra Urca... preciso chegar antes do ultimo bondinho subir... __
Ela decidiu que não mais valia sua vida e que não iria viver para lembrar.

__Já viu a vista linda que é lá em cima moça?

__Nunca estive lá... mas sei que é alto... bem alto...

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