De
estilo despojado, usava uma barba cafona e desleixada quando indo buscar alguma
coisa na mercearia da esquina de seu
bairro, mas esta mesma barba quando trajando seu fino e alinhado terno azul, o
transformava em um homem de estilo requintado.
Cuidava
de seu possante, sim, possante, foi assim que nomeou seu Alfa Romeu ano 1980,
com muito esmero, detalhista e perfeccionista, passava horas aspirando,
polindo, lavando, sem afobação.
Era
um estilo de vida apreciado, invejado, criticado e misterioso...
Toda
tarde, exatamente as 15hs, saia de casa com seu terno azul, cabelos tão
alinhados quanto... Entrava em seu possante e com todo cuidado trafegava nas
ruas do bairro evitando buracos, atento aos quebra molas, indo na mesma direção
de ontem, de anteontem e de todos os dias da semana, do mês, do ano...
Solitário?
Talvez... Mas apesar de sua aparente idade avançada, ainda era um homem firme,
e ninguém pode dizer que não tinha objetivos, metas...
Ele
era arrogante, muito arrogante, pois nunca pediu ajuda da vizinhança para nada,
pagava suas próprias contas, varria seu quintal, lavava suas roupas, não possuía
conta no bar... Ele era pedante com aquele carro brilhando e o terno azul...
Ele não era normal, nunca parou na porta da dona Arlete para contar ou comentar
a vida de ninguém, enfim, era um estranho, e por segurança meus pais diziam para não chegar perto... Eu apenas
obedecia...
Uma
vez quando eu fui com minha mãe ao centro da cidade entrei em uma grande loja,
minha mãe estava meio perdida, pedindo informação a qualquer um, e um deles foi
o segurança desta loja, pude ver o homem do terno azul sentado em uma mesa alta
com cadeiras tão altas quanto, em sua frente uma linda mulher esguia com
cabelos castanhos longos e ondulados, sorria espontaneamente e era fácil ver em
seus olhos a admiração e encantamento...
Se
tem uma coisa que tenho em mim é a certeza que mulher nenhuma consegue se
entreter com nada por mais de 5 minutos,
mas ela estava lá, copo de mate no final e olhos fixos no homem do terno azul,
por estalo o admirei, foi instantâneo.
Ela
era linda e estava presa a cerca
invisível lançada por ele, poucos homens conseguem tal feito e ele era um...
A
ida ao centro passou rápido, minha mãe entrou em mais umas 23 lojas e eu nem senti
o cansaço, pois, ainda intrigado maquinava situações em minha cabeça, não era o
possante dele o causador do encantamento para ela, era ele, o que ele era, o
que ele falava, sentia, o que lhe preenchia... Lembro dos sorrisos de olhos
baixos, das mãos nos cabelos que os jogavam de um lado para o outro... Olhos
submissos e alegres... Ela era dele e ele sabia... Falava sorrindo com olhos
fixos nela... Fingindo querer... Fingindo não querer... Aguardava, hoje eu sei,
o sinal verde, o baixar das armas, ele estava pronto e só faltava ela
escolhe-lo...