Pulei o muro meio desajeitado e não sei se aquele impulso
veio dos meus músculos ou se alguém me empurrou, eu só sei que corri, e como
corri, corri como nunca...
Eu não sabia onde ir, mas sabia que não podia parar de
correr...
O vento no sentido contrário diminuía minha performance, mas
era esse mesmo vento que me trazia o prazer do movimento, o ar aos pulmões e
frescor para minha pele, minha alma...
Depois de alguns Kilômetros eu tive medo, havia me
distanciado muito e não sabia se caso necessário fosse, se acertaria o caminho
de volta, mas sabia que se resolvesse voltar, apesar do vento a favor eu não o
teria no rosto...
E enquanto a dúvida se acomodava em um canto a cochichar eu
continuava a correr e comecei a sentir a fadiga dos músculos que restaram da
juventude, eles ainda estavam lá, talvez sem o mesmo vigor, mas continuavam a
funcionar, os ossos rangiam e rangem até hoje, e descobri que enquanto sentir
dor e puder ouvi-los, vivo estarei...
Tentei parar, achava que não havia mais a necessidade de
tanta correria, mas descobri que precisava do vento, do rosto suado, da fadiga
muscular, da dor dos ossos rangendo...
Parecia que assim eu me purificava, os pecados, os erros, as
mentiras, eram lavados de meu corpo pelo suor e o vento...
Sendo assim, uma vez que não existia a possibilidade de uma
limpeza completa, haja vista a constante renovação de pecados, erros e mentiras,
resolvi correr para sempre...
Correr como se um puro sangue fosse, um animal que sem o controle dos batimentos cardíacos não é
capaz de perceber que ultrapassou seu limite, que entregou além do seu
máximo...
E nunca perceberá... Nem mesmo quando estiver correndo por
um gramado infinito onde o vento sopra de todos os cantos...