terça-feira, 7 de outubro de 2014

Só sei que o Sol está lá esperando por ela...

Alguns indicaram uma van, afinal ela estaria toda arrumada e a ida de ônibus, trem ou metrô poderia amarrotá-la.

Analisou por conta própria e decidiu-se pelo metrô.

Logo cedo se arrumou com a ajuda de seus pais, seu irmão fazia às vezes de assistente, trazendo coisas que sua mãe necessitava, saberia se arrumar sozinha, mas sua generosidade permitia a ajuda de pessoas que torciam por ela, seu pai se colocou a disposição de ir com ela até a estação Pavuna e embarca-la, seu irmão foi além, começou a se arrumar rapidamente enquanto dizia que iria com ela até seu destino, mas ela, com toda educação, informou-lhe que alguns amigos já haviam combinado de irem com ela, então ele disse que iria em outro vagão, caso ela precisa-se de algo ele estaria por perto.

Enfim chegaram à estação, enfrentou enormes filas para compra dos bilhetes, aguardou sua vez e comprou um unitário, ela sabia dentro dela que seria um caminho só de ida.

Na plataforma uma senhora confusão, pessoas amontoadas nas marcações das portas aguardavam a chegada do metrô, ela com a consciência de ser apenas mais uma se espremeu e decidiu que seria aquele o metrô que pegaria.

Alguns amigos diziam para ela aguardar o próximo pois estaria mais vazio, mas ela não os ouvia.

Conseguiu ver seu irmão no meio de outro bolo de pessoas que se formava na frente de outra porta enquanto foi jogada pela correnteza humana para dentro.

Agora lá dentro observava o sufoco das pessoas e pôde ver muitos amigos desembarcando na estação Engenheiro Rubens Paiva na intenção de irem sentados.

Não seria fácil, não existe cortesia nesses momentos, ninguém lhe ofereceria o lugar, e a cada estação mais pessoas entravam.

Pelo whatsapp seus amigos e familiares lhe desejavam sucesso e isso lhe trazia força e uma certa pressão, entendeu que quando as pessoas compram sua briga a pressão é inevitável, não está em jogo mais só seus sonhos, você passa a ser uma espécie de esperança deles.

Em certo momento recebeu uma msg de seu irmão, havia sido empurrado pra fora pelo mar de pessoas na estação São Cristóvão e estaria logo atrás em outro metrô.

Pensou em descer e esperar o próximo, mas logo desistiu.

Por diversas vezes precisou escapar de ser jogada para fora pelas pessoas que desembarcavam e aos poucos seus amigos desapareceram, percebeu que logo após a linda estação Cidade Nova o metrô mergulhou em direção ao subterrâneo e imediatamente perdeu o sinal da internet e foi neste momento que se sentiu sozinha pela primeira vez, onde após um pânico inicial pôde refletir que na verdade sempre esteve sozinha, o caminho que escolheu era um caminho só dela, as pessoas se comoviam, transmitiam força, ajudavam em várias áreas mas não teriam como caminhar por ela.

Sim, pensou em desistir, poderia descer na central e voltar, mas ela queria ver o mar, e para isso teria que persistir, que doam os pés nesses saltos, que tentem me jogar para fora, a sovaqueira no meu nariz, a tentativa de um roçar maldoso, sabia que veria seus pais novamente, seu irmão estava bem, o sinal da internet iria voltar mais cedo ou mais tarde e alguns amigos voltariam a se aproximar... 

Decidiu seguir e quem poderá dizer que ela não vai conseguir? Quem?

Eu de minha parte acredito, acredito muito, pois o caminho é sem volta, o metrô não sofre com congestionamentos, no máximo uma espera de sinalização e só... Quem sabe um dia ela não me chame para um mergulho?  

Só sei que o Sol está lá esperando por ela...

Feliz Aniversário Dra. Chrislley do Nascimento Ferraz.



sábado, 16 de agosto de 2014

O homem do terno azul

De estilo despojado, usava uma barba cafona e desleixada quando indo buscar alguma coisa  na mercearia da esquina de seu bairro, mas esta mesma barba quando trajando seu fino e alinhado terno azul, o transformava em um homem de estilo requintado.

Cuidava de seu possante, sim, possante, foi assim que nomeou seu Alfa Romeu ano 1980, com muito esmero, detalhista e perfeccionista, passava horas aspirando, polindo, lavando, sem afobação.

Era um estilo de vida apreciado, invejado, criticado e misterioso... 

Toda tarde, exatamente as 15hs, saia de casa com seu terno azul, cabelos tão alinhados quanto... Entrava em seu possante e com todo cuidado trafegava nas ruas do bairro evitando buracos, atento aos quebra molas, indo na mesma direção de ontem, de anteontem e de todos os dias da semana, do mês, do ano...

Solitário? Talvez... Mas apesar de sua aparente idade avançada, ainda era um homem firme, e ninguém pode dizer que não tinha objetivos, metas...

Ele era arrogante, muito arrogante, pois nunca pediu ajuda da vizinhança para nada, pagava suas próprias contas, varria seu quintal, lavava suas roupas, não possuía conta no bar... Ele era pedante com aquele carro brilhando e o terno azul... Ele não era normal, nunca parou na porta da dona Arlete para contar ou comentar a vida de ninguém, enfim, era um estranho, e por segurança meus  pais diziam para não chegar perto... Eu apenas obedecia...

Uma vez quando eu fui com minha mãe ao centro da cidade entrei em uma grande loja, minha mãe estava meio perdida, pedindo informação a qualquer um, e um deles foi o segurança desta loja, pude ver o homem do terno azul sentado em uma mesa alta com cadeiras tão altas quanto, em sua frente uma linda mulher esguia com cabelos castanhos longos e ondulados, sorria espontaneamente e era fácil ver em seus olhos a admiração e encantamento... 

Se tem uma coisa que tenho em mim é a certeza que mulher nenhuma consegue se entreter com nada por mais de  5 minutos, mas ela estava lá, copo de mate no final e olhos fixos no homem do terno azul, por estalo o admirei, foi instantâneo.

Ela era linda  e estava presa a cerca invisível lançada por ele, poucos homens conseguem tal feito e ele era um... 

A ida ao centro passou rápido, minha mãe entrou em mais umas 23 lojas e eu nem senti o cansaço, pois, ainda intrigado maquinava situações em minha cabeça, não era o possante dele o causador do encantamento para ela, era ele, o que ele era, o que ele falava, sentia, o que lhe preenchia... Lembro dos sorrisos de olhos baixos, das mãos nos cabelos que os jogavam de um lado para o outro... Olhos submissos e alegres... Ela era dele e ele sabia... Falava sorrindo com olhos fixos nela... Fingindo querer... Fingindo não querer... Aguardava, hoje eu sei, o sinal verde, o baixar das armas, ele estava pronto e só faltava ela escolhe-lo...  

terça-feira, 29 de abril de 2014

A loucura e a sensatez não são pessoas estranhas

A loucura e a sensatez não são pessoas estranhas, elas frequentam os mesmos lugares, conhecem as mesmas pessoas e arrisco dizer que talvez dividam um conjugado na Zona Sul do Rio de Janeiro...

Afinal, quem não conhece a loucura de ser sensato?

Quem nunca afirmou ser sensata alguma loucura?

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Não mais forte, ainda tropeço em britas finas, mas estou aqui porra...

Tudo tem seu inicio, meio e fim e aí me dirão, fale algo novo pra mim...

Não há nada novo, continuamos a tentar...  Continuamos a tentar ser felizes, buscando um pouco de tudo neste mundo enorme que muitos dizem ser o caos da escassez, mas tem tanta e tanta coisa por aí...

Bom saber que não somos santos, bom saber que antes de ser magoado você magoou muito também...
Opa! Mas pera lá... Foda-se o que fiz, eu quero ser feliz...

E por aí caminhamos nesta trilha, alguns com uma facilidade enorme de se equilibrar e vencer os rochedos, outros que parecem que cairão na próxima fenda...

_Ui, então nesta... Agora vai cair... Caramba quase!

_Porra... Alguém aí, segura ele...

_Segura você... Mas cuidado pra não cair...

Agradeço a mim mesmo por escalar o poço fundo em que estava, não me venha dizer que era você quem gritava lá de cima, pois eu me lembro bem a pesada na voadora que você me deu no peito quando finalmente consegui sair...

Cada um tem sua história, o cara que caiu no poço no filme 300 também tinha sua honra, moral, valores e motivos para continuar...

Foda-se a profundidade que cai, eu já tinha respirado o ar puro e mais cedo ou mais tarde eu sairia de lá novamente...

Bem, aqui estou... Não mais forte, ainda tropeço em britas finas, mas estou aqui porra...

E agora não quero mais... Não vou buscar tábuas de salvação e nadarei para longe dos náufragos... Viva se puder, com os motivos que tem dentro de ti, é esse todo enorme apoio que tenho a lhe dar...

Sou mesquinho, acredito fielmente na grande mentira que diz ser eu um ser humano bom, de valor, verdadeiro e confiável...

Me deixa  porra, aqui na minha ilusão meu pau é enorme, meu corpo vai melhorar na musculação, vou ser um ótimo profissional, voltarei a jogar meu futebol, meus filhos vão ser sucesso puro, meus pais não morrerão nunca, vou finalmente ter aquela pick-up potente que me levará aos mais altos pontos de saltos de para paint e aí finalmente serei feliz...



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Resolvi correr para sempre...

Pulei o muro meio desajeitado e não sei se aquele impulso veio dos meus músculos ou se alguém me empurrou, eu só sei que corri, e como corri, corri como nunca...

Eu não sabia onde ir, mas sabia que não podia parar de correr...

O vento no sentido contrário diminuía minha performance, mas era esse mesmo vento que me trazia o prazer do movimento, o ar aos pulmões e frescor para minha pele, minha alma...

Depois de alguns Kilômetros eu tive medo, havia me distanciado muito e não sabia se caso necessário fosse, se acertaria o caminho de volta, mas sabia que se resolvesse voltar, apesar do vento a favor eu não o teria no rosto...

E enquanto a dúvida se acomodava em um canto a cochichar eu continuava a correr e comecei a sentir a fadiga dos músculos que restaram da juventude, eles ainda estavam lá, talvez sem o mesmo vigor, mas continuavam a funcionar, os ossos rangiam e rangem até hoje, e descobri que enquanto sentir dor e puder ouvi-los,  vivo estarei...

Tentei parar, achava que não havia mais a necessidade de tanta correria, mas descobri que precisava do vento, do rosto suado, da fadiga muscular, da dor dos ossos rangendo...

Parecia que assim eu me purificava, os pecados, os erros, as mentiras, eram lavados de meu corpo pelo suor e o vento...

Sendo assim, uma vez que não existia a possibilidade de uma limpeza completa, haja vista a constante renovação de pecados, erros e mentiras, resolvi correr para sempre...

Correr como se um puro sangue fosse, um animal que sem o controle dos batimentos cardíacos não é capaz de perceber que ultrapassou seu limite, que entregou além do seu máximo...



E nunca perceberá... Nem mesmo quando estiver correndo por um gramado infinito onde o vento sopra de todos os cantos...