15:00h o ventilador apoiado em cima de uma cadeira gira lentamente, soprando um ar quente, eu aqui deitado olhando a televisão, que passa um programa para crianças, só pode ter sido meu filho, com pouco mais de 2 anos, já consegue monopolizar o canal que deve ser sintonizado, isso sem choro, sem pirraça, sinto o suor escorrer por minhas pernas, não estou sosinho na casa, um som meio chiado, faço força pra levantar, mas ainda estou tonto... aquele remédio que a Dra. me receitou pra acabar com minha angustia ainda faz seu efeito, acredito que um dia alem de minha angustia ele ainda vai acabar com minha vida, meu filho brinca no quintal... atravessou um cabo de vassoura de um lado ao outro da parede... e diz que esta fazendo ginástica, sua voz me soa como um clamor... papai vem brincar comigo, eu tenho que ir.... mas me pergunto como, tento sorrir e é neste momento que mais uma vez as coisas mudam de posição... cadeira pra um lado... parede que se afasta... ufa o sofá esta aqui, que sorte a minha, vejo o computador em minha frente, ele está estático... olhando mais fixamente vejo a quantidade de contas a pagar em cima dele... me da vontade de tomar outro comprimido daqueles.... talvez até tomaria se conseguisse chegar até eles, espero as coisas se posicionarem, a cadeira ta parada, o que me da coragem de levantar... caminho até ele mas minha visão periférica( que dizem ser mais potente que a frontal) detecta uma pessoa na cosinha, não tenho medo, sei que é minha esposa e percebo que o som chiado que ouvia era o rádio-relógio que ela sintonizou em uma melodia, ao me aproximar de meu filho ele possuia uma bola pequena e dizia que iriamos joga voley, jogou por cima da vassoura atravessada então entendi que deveria devolver, ao tentar abaixar para pegar a bolinha, só percebi que havia me desequilibrado no momento em que senti a porrada que dei com a cabeça na parede... vi estrelas e ao mesmo tempo fiquei triste por não poder me divertir com meu filho que implorava por minha atenção... isso dói... e como dói...
Não sei como , mas estou sentado novamente no sofá... não lembro se chinguei, porém por mais que esfregue a cabeça a dor não passa, ouço aquela voz de novo "papai vem" " vem brincar comigo", a dor no peito cala a da cabeça na hora... já sei, vou tomar um banho, escovar os dentes, tenho certeza que estarei novinho em folha depois, o box é pequeno, cercado por uma porta sanfonada de pvc, sei que ela não resistiria meu peso em caso de queda, procuro ficar tombado pro lado da parede, a água cai em meu corpo, hummmmm esqueci... deve estar no quente, mas lembro que o chuveiro esta queimado a muito tempo, que verão é esse? me obriga a tomar banho quente, quando o que mais precisava era uma agua bem gelada no corpo, remédinho disgramado... não passa o efeito de jeito nenhum, saio do box em direção a pia, vou escovar meus dentes, o reflexo me mostra um homem razoávelmente bonito, apesar das olheiras, e os fios brancos que brigam para aparecer no meio dos fios castanhos, me impressiono com eles, são mais resistentes, grossos e por que não dizer bonitos... mermo assim não gosto deles, em um flash rápido me lembro do meu pai, seus cabelos grisalhos o deixa lindo, meu pai é muito bonito mermo, tenho que me acostumar com a idéia que vou ficar com os cabelos igual ao dele, se a aparência for igual também, não terei como reclamar, ele me contava como meu avô novinho já apresentava a cabeça branquinha, abaixo para cuspir na pia e pronto, outra porrada com a cabeça, que merda... aqui estou eu de novo sentado no sofá vendo meu filho brincando sosinho.